Ideologia, eu quero uma pra viver. Cazuza
A novela sobre a instalação do estaleiro em Fortaleza motivou-me a escrever esse texto, um pouco maior do que os que normalmente faço, mas que senti-me impelido a fazê-lo. Para os que não são familiares com a questão, segue uma pequena introdução. Uma licitação feita pelo Governo Federal para construção de estaleiros no País teve como um dos vencedores uma empresa que deseja construir um deles na cidade de Fortaleza. O local escolhido, em função de viabilidade econômica, foi a Praia do Titanzinho, local conhecido na cidade pela adequação à prática do surf. Não se trata, hoje em dia, de um dos pontos turísticos mais populares da capital sendo mais explorado pelos moradores da região. Detalhe, embora sem infra-estrutura turística a praia é bem dentro da cidade.
O Governador do Estado, Cid Gomes, assumiu pessoalmente a causa pró-instalação, pois vê vários pontos positivos no empreendimento, em particular, a criação de empregos. Alguns políticos contrários ao empreendimento argumentam que os impactos negativos, por exemplo, por questões ecológicas não o justificam. O surpreendente é que os que são contrários, em maioria, são membros da coligação que apóia o próprio Governador embora mais ligados à Prefeita de Fortaleza. Cheguei a assistir um debate entre o líder do Governo na Assembléia(do PT) contra o líder da Prefeitura na Câmara Municipal (do PT). Foi exatamente esse debate e uma declaração do líder do governo, Nélson Martins, que disse que a questão do estaleiro não era ideológica, que me motivaram a escrever sobre o tema.
O contexto é bem complexo e compreendê-lo e analisá-lo não pode ser feito em poucas linhas. Não tenho conhecimento técnico nem todas as informações sobre o empreendimento, mas ao escutar os discursos de lá e de cá fui gradativamente tendo o sentimento que não era necessário tanta profundidade para tecer os comentários que seguem. Creio que o debate inteligente pode nos fazer mais fortes como sociedade. Infelizmente, não me parece que isso tende a ocorrer.
Vejo o imbróglio como emblemático da falta que nos faz uma ideologia. Não me refiro à ideologia no sentido crítico e até pejorativo de instrumento de dominação e convencimento alienador da consciência humana. Refiro-me ao ” conjunto de ideias, de pensamento ou de visões de mundo de um indivíduo ou de um grupo, orientado para suas ações sociais e, principalmente, políticas” (segundo a Wikipedia).
As partes têm tentado vários argumentos em defesa de seus pontos de vista. E nesse tocante cometem alguns absurdos. Primeiro. Decidiram escutar a comunidade que mora na região. Como se uma decisão dessa magnitude só afetasse à comunidade que vive na região. O Governador chegou inclusive a dizer que se a comunidade não quisesse, ele desistia do empreendimento (só não disse como ele pensa em medir o sentimento da comunidade). O fato de freqüentar ou não o Titanzinho não desmerece a opinião de nenhum Fortalezense. Pelo contrário, é essencial que o debate se alastre.
Outra coisa que não concordo é quando começam a argumentar que os estudos técnicos vão decidir a instalação ou não do estaleiro. Balela. A não ser que o empreendimento fosse absurdamente danoso ao meio ambiente (aliás, se assim o fosse, seria identificado e barrado nos órgãos técnicos que liberam alvarás para sua instalação). Como não parece ser esse o caso, os estudos técnicos só vão suportar um ou outro ponto de vista que se quer defender. A questão climática ambiental em escala global tem nos mostrado o quanto se pode encontrar estudos técnicos para suportar as mais diversas teorias.
Por fim, a politicagem entrou em cena. A Prefeita Luizianne Lins decidiu apresentar um projeto (saído do forno, bem quentinho) para o local. O projeto transformaria o local, com praças e parques. O dinheiro para tal, ninguém sabe de onde vem, nem quando vem. A iniciativa serviu para acirrar mais os ânimos. A credibilidade de que o mesmo seja implementado é baixíssima. Isso fez então com que aqueles que já não pensam muito, pensassem menos ainda (ou passassem a pensar da forma pequena como o fazem na maioria das vezes) : “Se a prefeita é contra, eu sou o favor”, “a prefeita nem faz, nem deixa fazer”. O mérito da questão perdeu a importância.
No centro do debate “Titanzinho” deve estar uma questão ideológica, sim: a de que tipo de desenvolvimento se quer para a cidade. A primeira coisa a se fazer é reconhecer que qualquer que seja a decisão, há prós e contras. E nesse cenário, as ideias são fundamentais para unir uma sociedade. Para passar uma mensagem de que se reconhece o que se perde, mas que se acredita no que se faz. Nada de visões simplificadoras e lineares de que se pode tudo prever, nem pelos melhores estudos técnicos. Por isso, digo que a ideologia é fundamental. De um lado, o argumento de que a oportunidade de trazer o desenvolvimento econômico, necessário à região, justifica os malefícios que por ventura podem trazer. De outro lado, o argumento de que embarcar no estaleiro (com o perdão do trocadilho) não é sustentável a longo prazo e é incoerente com uma visão voltada ao turismo e mesmo ao desenvolvimento econômico futuro. Um impasse bem representativo do mundo em que vivemos durante esses últimos cem anos.
Por fim, minha ideologia. Creio que já está na hora de agirmos concretamente na direção de outro tipo de desenvolvimento. Os impasses tipo Titanzinho marcam o fim de uma era de desenvolvimento: a era industrial. Chega de pensar que porque uma certa região é carente ela aceita qualquer tipo de desenvolvimento. Queria saber se o local mais adequado para fazer o estaleiro fosse o Porto das Dunas se alguém teria coragem de propor sua instalação lá. Chega de tripudiar da nossa enorme riqueza que é nossa orla marítima. Gerações futuras não esquecerão das decisões como a que estar a ser tomada. Ainda hoje não consigo entender como temos um IML (em expansão, aliás) e uma estação de tratamento de dejetos no belíssimo mirante da praia do Pirambu. São exemplos de intervenções estatais equivocadas que, se não mataram, dificultaram fortemente, a possibilidade de crescimento turístico da área. A conseqüência é a manutenção de uma condição econômica desfavorável para a população dos arredores. O impasse do estaleiro exige da sociedade fortalezense uma mensagem clara de que estamos conseguindo ver um futuro diferente. Digo-lhes, os investidores estrangeiros vão compreender a rejeição, pois seria o mesmo que ocorreria nos seus países de origem. Se não fizerem negócio agora, lembraram da cidade quando quiserem fazer um negócio onde há uma sociedade que sabe o futuro que quer.
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